CAMADAS DE SENTIDO – GUY AMADO 2009
O repertório visual urbano é desde há muito um leitmotiv para boa parte da obra de Fabio Okamoto. É sobre ele que o artista opera e desenvolve sua pesquisa fotográfica, movido por um olhar preciso e treinado na captação do potencial de plasticidade oferecido pelos objetos, arquiteturas, ângulos instigantes e demais arranjos que a metrópole calhe de conter.
O foco de sua produção agora se mostra claramente fechado no desejo de uma aproximação com o vocabulário formal da pintura, em um mote investigativo que indica o afã em se valer da fotografia também como um veículo a ser explorado para além das especificidades clássicas desta linguagem.Texturas e grafismos de intenso apelo gráfico em muros e paredes descascadas — ou “pinturas espontâneas”, como o artista sintomaticamente as chama —, suas imagens se convertem em “situações estéticas” prontas mas também podem ser vistas como um delicado comentário arqueológico do presente, ao escavar nas fissuras da cidade certa energia vital que insiste em sobressair do tecido da urbe de modo silencioso, apenas à espera de ser percebida e capturada.Tal procedimento sugere uma pulsão de se recuperar em alguma medida uma idéia de beleza possível em meio à profusão de estímulos sígnicos que conforma a visualidade convulsiva da grande cidade; beleza que se revela sorrateira e inegavelmente nas formas que emergem por detrás de camadas de tinta e reboco que as encobre. Mas por trás de tal leitura, de tons estetizantes, há ainda uma vontade de dar vazão a outras inquietações, outras camadas de sentido: aquelas que falam do ruído que rege a existência na metrópole. Ruído surdo, que se confunde com os tantos dispositivos compulsórios de amortecimento perceptivo e pasteurização das sensações que condicionam a experiência da vida urbana cotidiana.
Mas… também essas frestas que Okamoto revela não se
constituiriam em um tipo de ruído elas próprias, em sua presença quieta e dissonante, a um só tempo imbricadas e alheias ao contexto em que se encontram? Capturadas em composições de sóbria elegância, estas fissuras “pictóricas” emergem um pouco como cicatrizes belas e incômodas, a um só tempo assinalando o desencanto com a ação humana que as encobre — há aí uma idéia de “ruína” que interessa ao artista — como a possibilidade de entrever alguma leveza em meio a tanto peso.
O uso do preto-e-branco em algumas imagens reforça a vocação de expressividade abstrata involuntária das texturas-décollages que brotam das camadas de tecido urbano que as recobrem. Acentua deste modo certo distanciamento deliberado do registro fotográfico documental ou “etnográfico” — ainda que dotado de grande plasticidade — caro a Okamoto em sua abordagem francamente pictórica de tais situações. Por outro lado, as imagens com elementos da natureza [água, pedra] re-introduzem um referencial fotográfico mais “puro” nesse conjunto, sugerindo que a pesquisa do artista, embora atualmente marcada pelo alargamento dos limites inter-linguagens em seu processo — o que é reiterado pela apresentação de seus cadernos de desenhos —, segue comprometida com uma tradição da qual não pretende, nem precisa, se afastar.
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A FOTOGRAFIA EM DESTAQUE NA GALERIA VIRGILIO
CAMILA MOLINA - Publicado em 8 de fevereiro de 2007
Caderno 2 -O Estado de S.Paulo
Quando era estudante na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Fabio Okamoto conheceu muitos dos edifícios que gostava por meio de fotografias, ou melhor, conheceu ‘muito do mundo’ por meio de imagens, mas quando chegava fisicamente a alguns daqueles locais, se decepcionava um pouco. ‘Pensei na mentira da fotografia’, diz Okamoto, que na faculdade foi se interessando cada vez mais pelo assunto e pelo gênero. Há a mentira da fotografia, mas há também o caráter revolucionário desse meio, como afirma o crítico José Bento Ferreira, pelo fato de ‘fazer do mero olhar uma forma de arte’ – olhar que pode enaltecer lugares, pessoas, universos, nas imagens; olhar que pode nos revelar mundos inesperados entre a realidade e a irrealidade.
As fotografias que Fabio Okamoto exibe na Galeria Virgilio valem-se, principalmente, dessa última vertente. São trabalhos realizados desde 2001, tanto um conjunto de fotografias em preto-e-branco quanto uma série de obras coloridas que reunidas se transformam na exposição Paisagens Desabitadas, sua primeira individual em São Paulo.
O interessante nos trabalhos do artista é uma certa suspensão do tempo e dos lugares presentes nas imagens. Não importa reconhecer os locais, aliás, muitos deles são extremamente simples como o portão de sua casa, uma árvore nas cercanias do Jockey Club, uma habitação demolida pelas obras do metrô de São Paulo, o chão de uma rua, assim por diante. Até mesmo uma tomada da Estação da Luz é irreconhecível porque foi feita durante as obras de restauração do prédio, na época, encoberto por uma rede de proteção.
Curioso também porque todas as imagens parecem ser noturnas, mas uma delas, em preto-e-branco, foi realizada, como diz o fotógrafo, ao meio-dia, no centro de São Paulo. ‘Há uma vontade de criar um mundo diferente’, diz Okamoto. Nas imagens em p&b, as primeiras realizadas por ele, há um interesse pelo registro de edifícios, tramas e texturas e pelo movimento das nuvens. Na série colorida, feita depois, a partir de 2004, fica mais evidente a vontade de se ‘descolar’ do real, o mundo diferente se dá pelas tonalidades tão fortes das cores nas imagens: a casa quase demolida está iluminada por um azul meio néon que veio esparramado de uma loja ao seu lado; em outra fotografia, a paisagem está vermelha também por causa da iluminação exterior.
Há alguns dados que Okamoto deixa aparecer na composição para dar ponto de referência ao observador, por exemplo, placas de sinalização e hastes do portão de uma casa em meio à folhagem para que a abstração não prevaleça. ‘O olhar bifocal de Okamoto vibra com alternância entre a visão pura e simples da realidade e o enquadramento fotográfico’, escreve José Bento Ferreira em seu texto Luz Sobre Papel.
O repertório visual urbano é desde há muito um leitmotiv para boa parte da obra de Fabio Okamoto. É sobre ele que o artista opera e desenvolve sua pesquisa fotográfica, movido por um olhar preciso e treinado na captação do potencial de plasticidade oferecido pelos objetos, arquiteturas, ângulos instigantes e demais arranjos que a metrópole calhe de conter.
O foco de sua produção agora se mostra claramente fechado no desejo de uma aproximação com o vocabulário formal da pintura, em um mote investigativo que indica o afã em se valer da fotografia também como um veículo a ser explorado para além das especificidades clássicas desta linguagem.Texturas e grafismos de intenso apelo gráfico em muros e paredes descascadas — ou “pinturas espontâneas”, como o artista sintomaticamente as chama —, suas imagens se convertem em “situações estéticas” prontas mas também podem ser vistas como um delicado comentário arqueológico do presente, ao escavar nas fissuras da cidade certa energia vital que insiste em sobressair do tecido da urbe de modo silencioso, apenas à espera de ser percebida e capturada.Tal procedimento sugere uma pulsão de se recuperar em alguma medida uma idéia de beleza possível em meio à profusão de estímulos sígnicos que conforma a visualidade convulsiva da grande cidade; beleza que se revela sorrateira e inegavelmente nas formas que emergem por detrás de camadas de tinta e reboco que as encobre. Mas por trás de tal leitura, de tons estetizantes, há ainda uma vontade de dar vazão a outras inquietações, outras camadas de sentido: aquelas que falam do ruído que rege a existência na metrópole. Ruído surdo, que se confunde com os tantos dispositivos compulsórios de amortecimento perceptivo e pasteurização das sensações que condicionam a experiência da vida urbana cotidiana.
Mas… também essas frestas que Okamoto revela não se
constituiriam em um tipo de ruído elas próprias, em sua presença quieta e dissonante, a um só tempo imbricadas e alheias ao contexto em que se encontram? Capturadas em composições de sóbria elegância, estas fissuras “pictóricas” emergem um pouco como cicatrizes belas e incômodas, a um só tempo assinalando o desencanto com a ação humana que as encobre — há aí uma idéia de “ruína” que interessa ao artista — como a possibilidade de entrever alguma leveza em meio a tanto peso.
O uso do preto-e-branco em algumas imagens reforça a vocação de expressividade abstrata involuntária das texturas-décollages que brotam das camadas de tecido urbano que as recobrem. Acentua deste modo certo distanciamento deliberado do registro fotográfico documental ou “etnográfico” — ainda que dotado de grande plasticidade — caro a Okamoto em sua abordagem francamente pictórica de tais situações. Por outro lado, as imagens com elementos da natureza [água, pedra] re-introduzem um referencial fotográfico mais “puro” nesse conjunto, sugerindo que a pesquisa do artista, embora atualmente marcada pelo alargamento dos limites inter-linguagens em seu processo — o que é reiterado pela apresentação de seus cadernos de desenhos —, segue comprometida com uma tradição da qual não pretende, nem precisa, se afastar.
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A FOTOGRAFIA EM DESTAQUE NA GALERIA VIRGILIO
CAMILA MOLINA - Publicado em 8 de fevereiro de 2007
Caderno 2 -O Estado de S.Paulo
Quando era estudante na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Fabio Okamoto conheceu muitos dos edifícios que gostava por meio de fotografias, ou melhor, conheceu ‘muito do mundo’ por meio de imagens, mas quando chegava fisicamente a alguns daqueles locais, se decepcionava um pouco. ‘Pensei na mentira da fotografia’, diz Okamoto, que na faculdade foi se interessando cada vez mais pelo assunto e pelo gênero. Há a mentira da fotografia, mas há também o caráter revolucionário desse meio, como afirma o crítico José Bento Ferreira, pelo fato de ‘fazer do mero olhar uma forma de arte’ – olhar que pode enaltecer lugares, pessoas, universos, nas imagens; olhar que pode nos revelar mundos inesperados entre a realidade e a irrealidade.
As fotografias que Fabio Okamoto exibe na Galeria Virgilio valem-se, principalmente, dessa última vertente. São trabalhos realizados desde 2001, tanto um conjunto de fotografias em preto-e-branco quanto uma série de obras coloridas que reunidas se transformam na exposição Paisagens Desabitadas, sua primeira individual em São Paulo.
O interessante nos trabalhos do artista é uma certa suspensão do tempo e dos lugares presentes nas imagens. Não importa reconhecer os locais, aliás, muitos deles são extremamente simples como o portão de sua casa, uma árvore nas cercanias do Jockey Club, uma habitação demolida pelas obras do metrô de São Paulo, o chão de uma rua, assim por diante. Até mesmo uma tomada da Estação da Luz é irreconhecível porque foi feita durante as obras de restauração do prédio, na época, encoberto por uma rede de proteção.
Curioso também porque todas as imagens parecem ser noturnas, mas uma delas, em preto-e-branco, foi realizada, como diz o fotógrafo, ao meio-dia, no centro de São Paulo. ‘Há uma vontade de criar um mundo diferente’, diz Okamoto. Nas imagens em p&b, as primeiras realizadas por ele, há um interesse pelo registro de edifícios, tramas e texturas e pelo movimento das nuvens. Na série colorida, feita depois, a partir de 2004, fica mais evidente a vontade de se ‘descolar’ do real, o mundo diferente se dá pelas tonalidades tão fortes das cores nas imagens: a casa quase demolida está iluminada por um azul meio néon que veio esparramado de uma loja ao seu lado; em outra fotografia, a paisagem está vermelha também por causa da iluminação exterior.
Há alguns dados que Okamoto deixa aparecer na composição para dar ponto de referência ao observador, por exemplo, placas de sinalização e hastes do portão de uma casa em meio à folhagem para que a abstração não prevaleça. ‘O olhar bifocal de Okamoto vibra com alternância entre a visão pura e simples da realidade e o enquadramento fotográfico’, escreve José Bento Ferreira em seu texto Luz Sobre Papel.
